Falar mal do SUS no Brasil é muito comum. Todos que usam tem lá seus motivos para reclamar, motivos estes que eu não discuto.
Aqui na Itália o que irrita, é que eles (os italianos) enchem a boca para falar que o sistema de saúde é ótmo e de graça. Também falam com muito orgulho do “tal” médico de família (que para mim é mais um passador de receitas do que um médico). Inclusive você é obrigado a se cadastrar na MUTUA (SUS daqui), tem até um nome TESSERA SANITÁRIA. Pois é, você quando chega aqui, fica bem preocupado em obter este documento, afinal sem ele você não pode ter acesso ao sistema de saúde. Muito bem, na teoria isso fica bem colocadinho. O SUS no Brasil teoricamente é bem colocadinho.
Vamos falar da prática:
Toda vez que você precisar ir no médico, vão falar: “vai no SEU médico”. Até aí tudo bem, mas azar o seu se você ficar doente no dia que ele não atende.
Ambulância vem te buscar se for uma emergência, mas isso tem que pagar, mas ninguém te fala, ou melhor, se você perguntar quando liga, eles falam sim, mas o normal prá quem usa o SUS é não pagar. Afinal, precisam levar o paciente, senão não é cliente. Outra coisa, eles te levam para um hospital e se você não tiver como voltar, outra despesinha com a ambulância, até vale a pena quando você não conhece a cidade, estava atordoado quando foi levado, não tem parentes ou amigos para te pegarem.
Neste caso vão falar: “se não é dia do médico atender, vá no Hospital”. Você vai, afinal está doente. Como chegar lá caso não tenha carro?
Alternativas:
Chame um amigo (dependendo do horário ou do dia, é bem chato! Mesmo que seu caríssimo amigo diga que tudo bem.)
Vá de trem: Dependendo de onde você está ou da hora não tem trem.
Vá de táxi: Sorte se você estiver numa cidade grande que tenha táxi.
Chame a guarda-médica: Legal né?
Eles vem em casa para ter certeza que você não vai chamar a ambulância em vão.
Se for dor-de-cabeça o remédio vai ser tachipirina (nosso tylenol)
Se for dor muscular o remédio vai ser tachipirina.
Se for dor no dente o remédio vai ser tachipirina.
Se for cólica o remédio vai ser tachipirina.
Se for dor nas costas o remédio vai ser tachipirina.
Se for tosse o remédio vai ser tachipirina.
Se estiver com dor de garganta o remédio vai ser tachipirina.
Você deve estar se perguntando: Não é possível?
Eu também me perguntei isso durante meses, inclusive perguntei para outras pessoas e aos poucos fui descobrindo que todos (quero dizer quem pode pagar), optam por ter um médico particular e só usam o Médico de família para pegar receitas e pagar baratinho o medicamento, às vezes nem pagar o remédio este médico de família serve também para te dar encaminhamentos para exames, só se você pedir, é isso mesmo que você está pensando… o normal é ir ao médico para que ele diga o que você tem, o pediatra da minha filha por exemplo não consegue imaginar quão distante é Curitiba do Rio de Janeiro, quando preciso ir lá trocar uma receitinha ou pegar um encaminhamento para exame, o foco dele não é a paciente, ele nem pergunta por que fui a outro médico, nem pergunta o por que daquele exame. Apenas fica falando do Rio de Janeiro e dizendo que quando for lá vai andar na cabeça do Cristo Redentor, não importa o que você fale, ele continua falando a mesma coisa.
Talvez você queira saber o por que não troco de médico. Pois então, esta foi minha primeira tentativa, mas depois de saber que no Comune onde eu tenho minha residência só tem dois médicos que atendem e que o método é padrão, desisti! Azar o meu.
Lá em cima eu falei que a guarda médica só dá tachipirina, mas não se preocupe, seu médico também pode dar, aliás ele também só receita tachipirina. Se você não quiser ir ao seu médico, fique tranquilo o farmacêutico também pode te receitar tachipirina, afinal de contas é ele quem vai te vender. Inclusive o farmacêutico aqui é titulado de DR. e enche o peito por isso.
Se você estiver bem mal sugiro que vá ao hospital e diga que está bem mal, senão vai levar tachipirina prá casa.
Vejam bem, estou falando daqueles probleminhas de saúde corriqueiros, mas que nos fazem muito mal, às vezes até trazem conseqüências bem sérias.
Minha filha e por conseqüência eu e meu marido fomos vítimas desta negligência. Minha filha, tem apenas três anos e durante dois anos e onze meses da vida dela no Brasil ela tomou antibiótico apenas duas vezes. Chegamos aqui em setembro de 2007 ela pegou uma gripe muito forte, ficou muito congestionada, fomos três vezes ao pediatra de família e o remédio que ele deu foi tachipirina e amoxilina, dez dias de tratamento e ela ainda não estava boa, voltamos ao médico e ele deu tachipirina, ela voltou prá casa do mesmo jeito que foi, espirrando tossindo e não dormindo bem. Começou a emagrecer, ficar com olheiras e sempre tossindo e espirrando. Fui novamente ao médico, adivinha qual remédio? Pensou que fosse tachipirina… haha te peguei, desta vez amoxilina (outro fornecedor), resultado positivo? Não nenhum.
Esta saga durou quatro meses a té o dia que eu estourei, briguei com o médico, briguei no hospital e exigi exames para saber o que ela tinha.
Resultado dos exames:
Era viral: ok, muita gente sabe que virus não trata com antibiótico.
Inicio de bronquite (ela nunca tinha ficado tanto tempo doente), tomou antibiótico por quatro meses que a deixou com o organismo enfraquecido.
A cultura detectou um problema bacteriano (oportunista), e que era imune ao amoxilina (eu teria matado minha filha se não tivesse tentado matar o médico)
Exame de sangue: princípio de anemia, pode até ser que ela já tivesse com um pouco de anemia, já que eu durante minha grávidez tive anemia.
Se tivessem feito exame nela quando ela estava indo para o terceiro vidro de antibiótico… se, se, se,…
Enfim, não sou médica, sou mãe e se levo minha filha ao médico é porque ela precisa e espero no mínimo que ele faça a parte dele.